Pular para o conteúdo principal

Aos Que Distribuem Glórias e Crachás

A Literatura Submersa do Século XX

Ramos Neto, o excelente poeta cearense que nada ficava a dever aos mais festejados do seu tempo, foi totalemente igonorado em sua terra natal, pelo simples fato de que não pertencia àquele velho tronco genealógico que abarca tudo por aqui, conforme já falei em alguns artigos publicados neste blog, inclusive na Breve História da Literatura Cearense, também inserida no índice desta página. Dessa forma, encho-me de satisfação ao transcrever, agora, uma matéria escrita por Edigar de Alencar, em 1961, no Almanaque do Ceará. Confiram!
(O editor)



O POETA INJUSTIÇADO

Edigar de Alencar

Até nas letras e, principalmente nas letras, é indispensável o bafejo da sorte. Alguns mal despontam e já são embalados às brisas do louvor que os conduzem ao êxito fácil. Outros vivem tôda uma existência segregados, esquecidos, e morrem emparedados no seu sonho, sem conhecerem a glória humilde de um aplauso, de um elogio sincero e estimulante.

Ramos Neto pertenceu à imensa corte dos últimos. Poeta espontâneo, fluente, versejava com facilidade e segurança. Era um inveterado sonetista. Modesto e retraído, publicou centenas e centenas de sonetos na imprensa de Fortaleza, sua terra natal. Quem folheie os jornais e as revistas literárias de 1905 a 1944, época em que morreu, ha de encontrar-lhe os versos cantantes e bem medidos.

Não obstante, seu nome não foi incluído na antologia publicada pelos poetas cearenses por ocasião do primeiro centenário de nossa independência. E, ainda agora, não lhe vejo os versos na Antologia da Literatura Cearense, publicada pela Academia Cearense de Letras.

Verdadeiro bicho no mato, Ra­mos Neto não cortejou jamais as figuras de proa das letras locais e dai a obscuridade completa que o envol­veu. Pertencia à numerosa legião dos poetas que morrem inéditos de vez que não chegaram a publicar em volume as suas produções. Teve o destino inglório dos sonhadores, cujos versos jazem para sempre na vala triste das gavetas ou na cova ignorada dos velhos periódicos.

Entretanto o olvido em que permanecem postumamente tal como o das antologias em que viveu, em que pese à constante divulgação de suas produções na imprensa de Fortaleza, é quase criminoso, pois Ramos Neto como poeta consegue sobrepor-se a muitos dos nomes que ficaram conflagrados e que tiveram sempre a seu favor as zumbaias e os preconícios festivos das antologias e das folhas. Se não teve vôos de gênio (e tenhamos a coragem de afirmar que no setor da poesia, excluído José Albano, jamais os tivemos) foi sempre Versejador aspirado, fácil e correntio. Arredio, misantropo renitente, sem frequentar livrarias nem as rodinhas consagradoras, Ramos Neto pagou pela sua indiferença aos que hoje como ontem comboiam as caravanas ­literárias que arquitetam e distribuem glórias e crachás.

Escondido na sua toca, só frequentando a repartição onde chegou aos mais altos postos, o sonetista simples deveria possuir verdadeira fobia das agremiações e centros literários de sua época.

Agripino Grieco, porejando veneno, afirmou de uma feita que Belmiro Braga deveria fazer os seus róis de roupa suja em quadrinhas. Ramos Neto fazia sonetos em qualquer margem de jornal e deve ter escrito vários nas costas das pules de jogo de bicho, um dos seus mais graves pecados. Despreocupado consigo mesmo, desleixado ao extremo, o poeta levou vida de asceta e de boêmio a seu modo. Sei que mais de uma vez acendeu um cachimbo ao balanço da rede amiga, num facho improvisado com páginas do livro "Vibrações" que chegou a batizar mas que jamais publicaria.

Ramos Neto não foi um grande poeta. Não sei, porém, se não o teria sido não fossem as imponderáveis fôrças do destino. Filiado ao estilo corrente dos sonetistas líricos, não quis nada com o parnasianismo tão em voga na sua juventude. Preferiu sempre o soneto cantante, sonoro, de feição popular. E nesse gênero igualou-se ao Padre Antônio Tomás, por quem se deixou visivelmente influenciar, não desmerecendo o modelo e superando de multo a vários fazedores de versos na sua terra. Há sonetos seus que são verdadei­ras jóias como "O novilho", quase desconhecido, "Judas", "Ano Novo', "Tereza", "Volta", "Camponeses", e "São Benedito", admirável quatorzeto que não me furto a transcrever:


São Benedito


Há muita gente branca neste mundo
Que vaidosa de si, da própria alvura,
Fala com nojo e com desdem profundo
Dessa gente que tem a pele escura.

Mas de que vale a física brancura
Se a nossa alma é lodaçal imundo?
Branca de cal, por fora, a sepultura
Oculta os vermes pútridos no fundo.

Alma branca dos céus! Negro adorado!
São Benedito, o preto imaculado
Que teve a glória que sonhou Jesus!

Um canto aos negros minha musa eleva,
No monte negro ha flóculos de neve,
Dentro da noite há vibrações de luz!

Embora espontâneo e singelo, elaborando sonetos perfeitos em cinco minutos, Ramos Neto produziu demais. Versejava sobre os fatos mais triviais e, embora o fazendo com correção e brilho, malbaratava a sua arte. Dir-se-ia que tinha necessidade de dar vasão ao estro borbulhante. O verso lhe era válvula de escape. Através dele comunicava-se com o mundo além-fronteiras de sua casa modesta, de sua rede balouçante, dos seus familiares queridos. Dai naturalmente a superprodução, que sendo de boa técnica, nem por isso lhe daria o renome que bem mereceu.
Para que se tenha uma ideia do poetar de Ramo Neto, vejamos o Seu "Volta":

Volta


Volta! Eu não posso mais viver sozinho.
Vamos reler a página volvida,
A página de luz da nossa vida.
Volta, formosa, para o meu carinho!

Sonho o teu beijo doce como o vinho
Das bodas de Caná! Volta querida!
E esta minha alma que jamais te olvida
Adornará de flores teu caminho.

Temos o mundo vil? Se tu me queres
E se és por mim profundamente amada.
Volta aos meus braços, deusa das mulheres!

Se não do teu amor me desiludo:
Filho de Deus, a Amor não teme nada.
Ao amor, meu doce amor, concede tudo. 


Tal como Antônio Tomás, Ramos Neto não cultivou o poema longo ou a redondilha. O soneto era o seu metro favorito e raro dele saia. Ainda assim e digna de menção a bela poesia "O náufrago", possivelmente inédita. Também como o padre poeta, o autor de "São Benedito" esgrimiu-se com êxito e graça no verso facêto.

São muitos os seus sonetos e sentestilhos humorísticos, entre Os quais "Os Meus Sapatos". Reproduzo aqui este quatorzeto na versão que sei definitiva por havê-Ia publicado na revista "Fanfarra", que redatoriei editada em Fortaleza de março a junho de 1925. É bem diferente da que Dolor Barreira reproduz na sua ad­mirável e utilíssima Históría da Literatura Cearense (3. volume). Naturalmente o historiador literário citou a versãa publicada na revista "Feníx", com dedicatória a Gil Amora, revista e modificada pelo autor da publicação em 1925. Ei-lo:

Os Meus Sapatos

Por tua casa às vezes passo, enquanto
Todo cheio de pó desas estradas,
Vou relembrando as Ilusões passadas
Com sentimento verdadeiro e santo.

Tu que te ocultas da janela ao canto,
Sei que ficas zombando com risadas
Das minhas botas velhas e cambadas
Que tanto estimo e que me serve tanto.

Moça formosa que a Vaidade ilude,
Minhas botas tiveram juventude...
Podes soltar teus risos insensatos.

Mas considera que, se tudo passa,
Has de ficar sem mocidade e graça
Como também ficaram meus sapatos.

-----------------------

Postagens mais visitadas deste blog

BUKOWSKI NUTRIA-SE DE POEMAS SUJOS E PROSTITUTAS DEPRAVADAS

Conto de Astolfo Lima

Aos treze anos, Bukowski disse, numa roda de garotos, que só haveria de se sentir plenamente realizado no dia em que acertasse uma bordoada de jeito na fuça do seu encardido genitor, um casca-grossa que costumava espichar-lhe o couro para escoar frustrações que lhe permeavam a vida chinfrim. "Let it be!"
Vociferou esse seu intento enquanto os colegas, um a um, perfilavam anseios mais brandos: um querendo se tornar aviador quando crescesse; outro, maquinista de trem; outro mais, artista de cinema, cantor de blues ou boxeur, e assim sucessivamente, como ocorre naquela fase inconsequente e pueril de todo adolescente. 
"Assim farei, ainda que necessite dar o fato como lastimável acidente doméstico, em que, postando-me ao corredor da casa, armado com fornido taco de beisebol, simularei rebatidas de bola como se desejasse não mais que aperfeiçoar jogadas para marcar presença no colégio, onde todos me discriminam por conta de minha pouca habilidade nesse …

T S ELIOT E AS EMANAÇÕES DELITUOSAS DE CHARLES BAUDELAIRE

Por Astolfo Lima


O casamento de T. S. Eliot e Vívien estava rachado desde 1922, porém os dois ainda se digeriam sob a mesma plataforma até o início da década de trinta. 
Ela, com fortes sinais de instabilidade mental, que se acentuara muito ao vir a público sua infidelidade ao marido, com Bertrand Russell. Eliot, insensível às coisas supostamente vãs, e uma crueldade que por vezes atingia pessoas mais próximas, como a desfeita a Ezra Pound, logo após o amigo adverti-lo de que "mutilar" as 92 linhas de "Death by Water", transformando-as em mísera estrofe, não fora ideia das melhores. 
Indignado com a intromissão do ex-amigo, Eliot simplesmente vociferou que o discurso de Pound apenas o incentivara a fazer as coisas do seu próprio jeito. 
O poeta Eliot, a esse tempo, como todo astro de maior envergadura, transitava entre seus pesadelos mais íntimos e a quase obsessão de agrupar em uma mesma arquitetura os emanações delituosas de Baudelaire, os slides etéreo-emblemáti…

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: O PLAYBOY DA ALDEOTA

Por Astolfo Lima


Zé Bacurau andava mais afável ultimamente, algo raro num casca-grossa raivoso que tentava impor moral denunciando no Distrito Policial qualquer besteira que ocorresse no bairro. É que sua filha Zilá estava de namoro firme com o Valdecir, um ricaço da Aldeota, amigo de vários figurões da alta sociedade fortalezense, inclusive do prefeito. 
Mal apareceu em nossa rua, sob pretexto de procurar terreno para compra, o tal sujeito foi logo se enturmando com os frequentadores da bodega do Juarez, onde passou a comparecer nos fins de semana, oferecendo birita aos papudinhos, distribuindo balas pros meninos, e, claro, ganhando aos poucos todas as fanzocas de Wanderley Cardoso que havia nas imediações, inclusive a filha única do referido Bacurau, para desespero dos marmanjos mais velhos que babavam pela gostosona.
Zilá era, de fato, uma princesa: morena de olhos verdes, longos cabelos, corpo de sereia como se dizia naquele tempo, e também namoradinha secreta de nós outros, broch…