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Mostrando postagens de Dezembro, 2016

O EXPERIMENTO DE MACHADO DE ASSIS E EDGAR ALLAN POE

Por Astolfo Lima


Depois de ler “O Experimento do Dr. Pena e do Professor Abreu”, de Edgar Allan Poe, Carolina se aproximou de Machado de Assis e disse, a sorrir: “gostaria muito que você escrevesse um conto assim”.
Machado mirou a esposa, por sobre o pince-nez, recolheu o livro que ela lhe oferecia e respondeu que na primeira oportunidade cuidaria de ler aquela história que tanto a impressionara.
Quinze dias depois, Machado entregaria à Carolina os originais de O Alienista, com a seguinte observação: “Talvez Edgar Allan Poe quisesse dizer isto”.
Portanto, caríssimo leitor, se o amigo já teve a oportunidade de ler os dois contos aqui referidos, saiba que jamais passou pela cabeça do genial Machado de Assis plagiar Edgar Allan Poe. Nosso mestre apenas aceitou a provocação de sua amada Carolina, assim como já o fizera quando na feitura do Memórias Póstumas de Brás Cubas” ou “Dom Casmurro”.
O bruxo do Cosme Velho não precisaria se valer de temas alheios para construir belas narrativas, me…

VICTOR HUGO VIU EM RIMBAUD UM MERO SHAKESPEARE INFANTIL

Por Astolfo Lima

Ao adentrar a loja do armeiro Jerome, Paul Verlaine cambaleava um pouco, o que causaria certa preocupação no velho amigo com quem costumava passar horas a conversar sobre armas antigas. 
Gestos um tanto arrebatados e voz claudicante, o poeta disse estar precisando de uma boa arma, no que o dono da loja lhe indicou bela pistola Bunney 1852, supondo que Verlaine buscasse apenas mais uma peça para sua coleção particular, o que fazia com frequência. 
Jerome só começou a desconfiar de que algo grave poderia se embutir naquela atitude do amigo quando o poeta solicitou razoável quantidade de munição. De todo modo, fez-lhe a venda, acreditando que Paul estaria apenas embriagado, como de costume. 
Outros testemunhos, entanto, afirmam que Verlaine mão estava bêbado ao adquirir a tal arma e muito menos quando desferiu um tiro à queima-roupa contra Arthur Rimbaud, atingindo-o de raspão. Encontrava-se simplesmente corroído pelo ciúme, que o fizera inclusive abandonar a esposa Math…

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: A CABRA DO CHICO DA MATILDE

Por Astolfo Lima


O biscateiro Chico da Matilde morava lá pras bandas do Buraco da Gia, mas era frequentador assíduo da nossa rua, onde gozava de boa reputação por encarar sempre os piores serviços sem nunca reclamar, mesmo que o pagamento não fosse lá essas coisas. Quisesse desentupir uma fossa, remover um entulho ou cavar uma cacimba, bastava dar um toque, patrocinar-lhe uma meiota de pinga e estava resolvido o problema.
Tratava-se de um caboclo parrudo, já meio velho, desdentado e manco duma perna, porém mais disposto que a gota serena. Só andava com uma peixeira enfiada no cós das calças, e ai daquele que se metesse a besta com qualquer morador do bairro. O próprio Zé Bacurau, que se dizia samango aposentado e vivia de caguetar todo mundo no distrito policial, falava manso com Chico da Matilde. O codinome era uma referência ao fato de Chico viver amancebado com uma ex-rapariga do velho Farol do Mucuripe que se notabilizaria mais tarde como grande conselheira do lar e cartomante. Ca…

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: BETO PÉ DE ANJO

Por Astolfo Lima

Quando Beto Pé de Anjo apareceu na bodega do Juarez às quatro da tarde, todo produzido e com sua radiola portátil debaixo do braço, a negada imaginou logo que a tertúlia se daria dali há pouco. 
O bicho vinha enfiado num blusão de couro, óculos escuros aro de tartaruga cobrindo metade da cara, calça Far-West de cano estreito e sapatinhos de camurça branca, mais parecendo um rabo-de-burro, se bem fosse o Beto um pacato boa vida, filho dum galego que possuía pra mais de mil e oitocentos fregueses no cartão, ou seja: enquanto o velho abastecia meia Fortaleza de chitas e morins, Beto Pé de Anjo papocava grana no varejo, desviando aqui e ali uma faturinha, de modos que vivia patrocinando bailes, papando as cabrochas do Tiradentes e fazendo inveja aos lisos. 
Pensem num cabra pra gostar de tertúlia! Não perdia uma, fosse onde fosse, levando sempre sua vitrola e expressivo repertório de long-playings e compactos duplos, em que se destacavam Paul Anka, Neil Sedaka e Elvis Pre…