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Mostrando postagens de Novembro, 2016

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: A FITINHA VERMELHA DO RONIVON

Por Astolfo Lima


No dia em que Ronivon sumiu, todo mundo ficou suspeitando de todo mundo na nossa rua.
Tratava-se de um siamês manhoso que usava fitinha vermelha no pescoço e era o xodó da Perpétua, uma coroa encardida que discutia com os vizinhos e costumava rasgar bolas a canivetadas, tantas caíssem no seu quintal.
"Se essa rapariga rasgar uma bola minha, eu dou fim nesse gato réi aviadado" - dizia o Zeca, um carga-torta da nossa rua, sem se tocar que poderia se perder pela boca larga.
Outro muito íntimo do bichano era o Seu Filó, um aposentado da RVC, que gastava o tempo coçando os respectivos, sentado num banco da bodega do Juarez, onde colhia as novidades e fazia reminiscências da Fortaleza anos quarenta/cinquenta e suas assombrações lá pras bandas da Estação Luís Felipe, quando ele ainda manobrava uma velha maria-fumaça.
Mal amanhecia o dia, Seu Filó dava logo as caras na bodega, um casarão parede-meia com a casa da referida Perpétua e também extensão dos aposentos de …

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: DUDA PEITO DE POMBO, O CRAQUE QUE O VOZÃO NÃO TEVE

Por Astolfo Lima


Duda Peito de Pombo batia o maior bolão nas peladas do nosso bairro e abraçava o grande sonho  de defender as cores do Ceará Sporting Club, o time que durante minha primeira juventude teve Gildo no comando do ataque, o maior centroavante que já pintou em terras alencarinas, de modo que não sobrava pra nenhum outro time do Estado, nem mesmo para o Tricolor do Pici, também timaço, com Mozar infernizando as defesas adversárias.
Para terem ideia do poderio alvinegro, naquele tempo o Náutico do Recife chegou por aqui expelindo a maior goma, gabando-se de ter despachado os melhores times do nordeste com sua poderosa linha de frente formada  por Nado, Pita e Lala, e tomou uma acachapante goleada, lá no velho PV da placona do guaraná Wilson com seu garoto do placar logo abaixo anotando um gol em cima do outro.
Duda jogava entre a molecada na faixa dos treze, quatorze anos e era tido por todos da nossa turma como "vei", embora dissesse ter apenas dezessete. Uma incóg…

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: SARARÁ INVOCADO

Por Astolfo Lima

Doca estava repetindo ano pela terceira vez e essa seria sua última chance de se tornar gente, no dizer do próprio paí, um sujeito rústico que vendia miúdos de boi escanchado na garupa dum burro, a propagar pelas ruas as delícias de sua panelada. Já dera, inclusive, ultimato ao filhão: "se exe fio duma égua não se aprumar, vai trabaiar mais eu no "curri". Referia-se ao abatedouro da Prefeitura.
Doca, nem aí. Gostava mesmo era de aprontar contra os meninos de menor tope. Abria sorrisão cafajeste, aplicava chave de braço no primeiro pivete que encontrasse pela frente, dava-lhe uma rasteira e depois apoiava um dos joelhos no peito do garoto, erguendo o braço, punho cerrado, como se fosse desferir um soco na cara do infeliz. Tudo encenação. Queria mesmo era exibir seus incisivos podres, enquanto eu ficava de longe, injuriado, louco para intervir, mas cadê coragem de enfrentar aquele sarará corpulento e ignorante? Melhor ficar quieto e maquinar um plano, par…

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: O PLAYBOY DA ALDEOTA

Por Astolfo Lima


Zé Bacurau andava mais afável ultimamente, algo raro num casca-grossa raivoso que tentava impor moral denunciando no Distrito Policial qualquer besteira que ocorresse no bairro. É que sua filha Zilá estava de namoro firme com o Valdecir, um ricaço da Aldeota, amigo de vários figurões da alta sociedade fortalezense, inclusive do prefeito. 
Mal apareceu em nossa rua, sob pretexto de procurar terreno para compra, o tal sujeito foi logo se enturmando com os frequentadores da bodega do Juarez, onde passou a comparecer nos fins de semana, oferecendo birita aos papudinhos, distribuindo balas pros meninos, e, claro, ganhando aos poucos todas as fanzocas de Wanderley Cardoso que havia nas imediações, inclusive a filha única do referido Bacurau, para desespero dos marmanjos mais velhos que babavam pela gostosona.
Zilá era, de fato, uma princesa: morena de olhos verdes, longos cabelos, corpo de sereia como se dizia naquele tempo, e também namoradinha secreta de nós outros, broch…

CRÔNICAS DA PRIMEIRA JUVENTUDE: JOGO DE BOTÕES

Por Astolfo Lima

No meu tempo de menino, jogo de botões era com botões mesmo, abrindo exceção apenas para alguma tampa do mostrador de relógio de pulso, geralmente de plástico, côncava, não muito saliente e que, tendo a cavidade preenchida com vela derretida e o bojo lustrado, se transformaria em excelente center-half. 
Demais craques eram botões arrancados de paletós esquecidos no guarda-roupas da casa de minha avó, os geralmente bem talhados cortes de casimira ou linho branco já antigos, ou dos vestidos caseiros de minhas tias solteironas, vez que os das roupas de festas, por serem coloridos e delicados demais, não se prestariam nem como reservas do meu time. 
Dos ternos do meu avô, não; tudo craque. Belíssimos botões, com dois ou quatro furos; rajados, de osso ou chifre de boi, bejes, marrons, em madrepérola; de circunferência média ou pouco mais avantajada, a que eu raspava no vértice ou na saliência do fundo, a depender da posição em que quisesse escalar aquele craque em preparo.…

1800 PSEUDÔNIMOS PARA DALTON TREVISAN

Por Astolfo Lima

"O que não me contam, eu escuto atrás das portas. O que não sei, adivinho e, com sorte, você adivinha sempre o que, cedo ou tarde, acaba acontecendo" – disse Dalton Trevisan, numa roda de amigos, onde se destacavam Carlos Drummond de Andrade, Antonio Cândido e Otto Maria Carpeaux. 
Amparado nessa máxima, foi que Dalton, embora enclausurado a vida toda, conseguiu transitar entre um século e outro perfeitamente sintonizado com os modismos literários que ocorrem de tempos em tempos, a exemplo da nova ordem que se estabeleceu com a internet, a única que num primeiro instante chegou a confundir o irrequieto contista.
Aconselhado por um amigo a visitar salas de bate-papo virtual, quando ainda não havia Facebook, Dalton logo compreendeu que esse exercício seria bem mais prático para adaptar seu linguajar ao tempo presente que frequentar os inferninhos e feiras do mundo real de Curitiba, conforme fazia desde 1960, sempre disfarçado de... Dalton Trevisan. 
Superado o…

O QUASE DUELO ENTRE MAQUIAVEL E ARIOSTO

Por Astolfo Lima


“Você é louco” – disse Maquiavel a Ludovico Ariosto, em encontro casual numa taberna de Florença. 
“Daqui há quinhentos anos, quando nos encontrarmos novamente, ainda que num folhetim mais ordinário que O Príncipe, veremos quem é o verdadeiro doido” – retrucou Ariosto.
Maquiavel estava injuriado porque soubera que Ludovico Ariosto omitira seu nome na extensa lista de poetas do popularesco Orlando Furioso, livro a que só concedeu alguma relevância por ridicularizar a nobreza feudal em decadência e prenunciar o novo homem da Renascença, conforme ele também, Maquiavel, intuía.
Ariosto, por certo, não entendera a ironia de Maquiavel ao retratar o Estado, e muito menos o modus operandi daqueles que controlavam e haveriam de controlar pelos séculos sem fim esse organismo medonho, e só por isso minimizara sua condição de poeta, autor de pérolas como Decennale primo, poema de 550 versos, ou Asino d'oro, Sonetti, Canzoni, Ottave, e Canti carnascialeschi, provavelmente não …