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Breve Ensaio Sobre o Oráculo de Jorge Luís Borges

Por ALimaS

Pense num escritor que foi espécie de oráculo para Jorge Luis Borges, Bioy Casares e Julio Cortázar! Um sujeito a quem Borges dizia ser impossível decifrar, dado que seria algo assim como querer definir o vermelho por meio de outra cor. Pensou? 
Imagine agora um poeta que faz humorismo e, com a mesma desenvoltura, transita no ramo da metafísica. Um cara que amava profundamente a esposa e que, perdendo-a de forma prematura, passa a cultuá-la em sonhos. Ora, o que teria a mulher dele a ver com a presente reflexão? - você, por certo, se perguntará. Não se questione, pois tem. 
Não apenas imagine essa suposição de indivíduo, tampouco caia em divagações apressadas; apenas conceda cores reais a esse livre pensador festejado pelos grandes cânones da literatura argentina e que, ainda assim, permanece um quase desconhecido no país de origem, e sobre quem somente na virada do presente século alguns críticos começaram a tomar conhecimento de sua figura surreal. 
Sei, um indivíduo assi…
Postagens recentes

THOMAS É BOB, DYLAN É THOMAS

Por James Kafka

Dylan Thomas, o poeta galês com quem Bob Dylan associou-se no nome e no sentimentalismo, começou a fazer poesia, de ouvido, ainda criança, dado que o pai costumava recitar-lhe Shakespeare antes mesmo que aprendesse a ler.
Assim como Bob, ou a exemplo de Thomas, ambos detestavam o ensino convencional das escolas, abrindo exceção apenas à língua pátria e a literatura - exercícios em que se tornariam exímios malabaristas, cada um a seu modo, porém guardando, os dois, fortes semelhanças na eclosão de seus respectivos sentimentos.
Com 18 anos, por exemplo, Thomas já havia escrito a parte mais substancial de sua poesia, como se sentisse uma necessidade quase absurda de proferir num só fluxo tudo aquilo que o inquietava. Mais contido, ainda que não menos obstinado na construção de sua obra, Bob Dylan com essa mesma idade vislumbrou o folk como mais adequado para escoar seus versos de largo curso, descartando de vez o rock tradicional. 
Com vinte anos, já em Londres, Thomas ga…

O Monstro que Devora Esculturas de Bronze e Ergue Castelos de Areia

Por ALimaS

A sabedoria popular cunhou o brocardo definitivo: "Quer ser bom, morra!". Referência perfeita às injustiças que geralmente fazemos aos visionários, grandes heróis e artistas com os quais muitas vezes privamos sem captarmos, de logo, a dimensão moral e intelectual de cada um, só passando a cultuá-los depois que partem e viram unanimidade nacional. Vai-se o homem, fica a fama - conforme diria aquele poeta que desejava morrer numa batucada de samba.

Com relação ao livre pensador Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, não poderia ser diferente. Muitos de nós da sua geração, por pura ignorância ou comodismo, perdemos a noção ou nos omitimos quanto a grandeza de sua obra e do artista, enquanto ambos ainda estavam bem ali, palpáveis e abertos ao nosso aplauso mais espontâneo, sem aquele entusiasmo estéril que por certo sufocaria o poeta. Culpa nossa? De todo, não! Do monstro que devora esculturas de bronze e ergue castelos de areia: a mídia.

Há artistas, entant…

A Princesa do Norte e o Conde

Dom José Tupinambá da Frota - O visionário


Por ALima


Remexendo em meus alfarrábios, encontrei matéria relacionada a esse extraordinário homem, Bispo-conde da cidade de Sobral - uma figura realmente fantástica, e que, só agora, me toco quanto à sua real dimensão e importância no contexto da nossa História, eu que era apenas um menino quando o conheci.

Do ilustre religioso só me ficara cenas esparsas, relatos breves; aquela figura austera, silenciosa, na cadeira episcopal da Igreja da Sé; portas verdes; o Cruzeiro; o mármore; a brisa do Acaraú, ao fundo; os fícus-benjamins; a praça; o tamarineiro; a rua estreita; o Arco do triunfo, o Palácio Episcopal e eu correndo pelas ruas, gritando: Palhano, Palhano, Palhano. O filho adotivo de Dom José, que fazia piruetas num teco-teco, arremessando bolas e balas para os garotos que o ovacionavam. Palhano que também era padre e depois se tornou Prefeito de Sobral; e era da UDN, e apoiava o Jânio, e distribuía broches de vassourinhas no sobradão que…

Leonardo Mota e Seu Jornal

LEOTA E O JORNALISMO DO SERTÃO

Matéria Publicada do Almanaque do Ceará 1948

Achamos oportuno transcrever de um jornal de Sobra1 (edição de 8 de Dezembro de 1934, o artigo abaixo da autoria de nosso saudoso conterrâneo, o escritor Leonardo Mota, no -qual ele descreve com chiste que lhe era peculiar, as reminiscências da vida de seu jornalsinho GAZETA DO SERTÃO, publicado em 1913, na cidade de Ipú, onde então exercia o cargo de Promotor Público. Ei-Io:

O JORNAL faz anos hoje. Quantos? Dois, apenas. Mas, como os estudantes que "galgam" ele não diz que completou dois anos e, sim, afirma todo ancho que foi promovido ao terceiro ano do curso, quero dizer, de vida ...
É, pois, o aniversário de um petiz da imprensa cearense. Mas, petiz num gênero existencial em que ao atingir dez primaveras a gente já fala em longevidade, e, ao beirar os vinte janeiros, já se é macróbio.
Dois anos! O infante se criará, vencido que já foi o arriscado período da dentição. Somente quem já fez jornalismo no…

A louvação de asnos transbordantes e universais

Por ALimaS

Erasmo de Roterdã, o sábio que vislumbrou a inversão de valores que se tornaria trágica no século da modernidade.

Gratificante rever com olhos da maturidade aquilo que nos escapa ao tempo em que ainda não imaginamos ser a vida tão somente esse teatro surrealista de agora, com seus astros e plateias previamente elaborados e infinitos - do modo, aliás, como já observara Erasmo de Roterdã, captando os desvarios da raça humana e o supremo papel que teria sido reservado a cada um de nós, por força da nossa estupidez ou sabedoria.

Em O Elogio da Loucura, escrito no século XVI, o sábio já vislumbra esse mundo absurdo de agora, em que o grande farsante/mandatário só se permitiria cercar de palhaços genuinamente palhaços que o fizessem gargalhar/esquecer a monstruosidade de sua própria alma. No máximo, daria aval à louvação dos imbecis veramente imbecis que endossassem sua vilania. 
Muito mais que a crítica mordaz a uma sociedade apodrecida, do seu tempo, prevê ele os desdobramentos…

Aos Que Distribuem Glórias e Crachás

A Literatura Submersa do Século XX

Ramos Neto, o excelente poeta cearense que nada ficava a dever aos mais festejados do seu tempo, foi totalemente igonorado em sua terra natal, pelo simples fato de que não pertencia àquele velho tronco genealógico que abarca tudo por aqui, conforme já falei em alguns artigos publicados neste blog, inclusive na Breve História da Literatura Cearense, também inserida no índice desta página. Dessa forma, encho-me de satisfação ao transcrever, agora, uma matéria escrita por Edigar de Alencar, em 1961, no Almanaque do Ceará. Confiram!
(O editor)



O POETA INJUSTIÇADO

Edigar de Alencar

Até nas letras e, principalmente nas letras, é indispensável o bafejo da sorte. Alguns mal despontam e já são embalados às brisas do louvor que os conduzem ao êxito fácil. Outros vivem tôda uma existência segregados, esquecidos, e morrem emparedados no seu sonho, sem conhecerem a glória humilde de um aplauso, de um elogio sincero e estimulante.

Ramos Neto pertenceu à imensa corte …

Jáder de Carvalho Traça Ligeiro Perfil do Barão de Studart

CASOS & COUSAS

JÁDER DE CARVALHO

(Publicado no seu Jornal, Diário do Povo, em janeiro de 1956)

Era baixinho, vermelho, de olhos de aço polido. Os cabelos, muito brancos e lisos, quase desapareciam sob a cartola preta e lustrosa, que ele usava diariamente, como imposição natural do fraque de abas longas e casemira inglesa.

Falava ciciando, exibia qualidades de perfeito cavalheiro e, no seu gabinete, era sempre um homem curvado sobre a mesa, onde examinava documentos, comparava datas, esclarecia fatos. Na vida social, cumpria religiosamente os deveres de cidadão e, à margem do seu grande labor de pesquisa histórica, tinha tempo a gastar com os pobres, em sociedades de fins filantrópicos.

Não possuiu o talento e muito menos a intuição sociológica de João Brígido.

Na segurança do método do trabalho, superou Antônio Bezerra e Joaquim Catunda. Quanto a Capistrano de Abreu, não cabe qualquer paralelo entre os dois: o campo de ação do autor dos "Capítulos de História Colonial"…

O Maquiavel Poeta

MAQUIAVEL, Poeta (1469-1527)


Por ALimaS


Pouca gente sabe que Maquiavel, além de político, filósofo e escritor, foi também poeta de méritos. Chegou a lamentar-se pelo não reconhecimento dessa sua faceta quando Ariosto omitiu seu nome no último canto do poema Orlando Furioso, em que destaca extensa lista de poetas italianos.

Descendente de nobre e tradicional família de Florença, o ilustre pensador foi um homem que suscitou ódios e paixões. Para uns, não passava de herege; para outros, viveria a soldo da Igreja. A verdade, porém, é que se imortalizou com um opúsculo chamado O Príncipe, considerado o marco da Ciência Política e também um dos livros mais famosos e controvertidos do mundo. Obra que causaria, à época, um impacto revolucionário só comparável ao que teria um século depois O Discurso do Método, de Descartes.

Com O Príncipe, Maquiavel se desvincula das concepções teológicas plantadas em normas políticas oriundas da Idade Média e se transforma num observador direto das coisas da pol…

EIS O CARA

Por ALimaS
Caro Lay de Oliveira Silva:

Queira receber a tardia retratação desse escritor menor, que, despido de qualquer ressentimento, deseja tão somente prestar reverência ao gênio maior - no caso você. 
É que só agora vim a compreender que a verdadeira literatura contemporânea está sendo produzida por sua nobre pessoa, aqui na Internet. São suas fabulosas crônicas de costumes, seus jocosos e exuberantes relatos e sua extrema delicadeza no trato com as senhoritas e rapazes daquele notável site de quinhentos colunistas, no qual desponta o amigo como figura de proa, que estão dando vida à Grande Rede. Não fosse você, caro amigo, hoje não mais haveria sites de literatura na Internet.
Diante, portanto, de fato tão gratificante para a Cultura Nacional, e quem sabe de toda a América Latina (talvez do mundo), nada mais me restava senão curvar-me a sua pessoa e lhe pedir desculpas por minhas inconsequentes investidas sobre sua prosa magnífica. E que a plebe literária não veja nesse meu humi…

A Literatura no Ceará

Letras e Rabiscos na Terra de Manezim do Bispo

Fragmentos de um livro em preparo




Escritores Ao Sopro da Maria-fumaça


Por ALimaS


A literatura no Ceará desenvolveu-se através de consórcios, se bem que os escritores mais talentosos, quase sempre, optassem pela carreira solo. Grupos ou corriolas (no bom sentido, claro) que se reunirem em clubes, associações de classes ou mesmo em torno de uma autoridade, como ocorreu logo em seus primórdios, por volta de 1813, quando rapazes bem posicionados na sociedade provinciana passaram a frequentar assiduamente o palacete governamental para tecerem loas ao Sr. Manoel Inácio de Sampaio.

Versejadores de ocasião: alguns, de boa índole, embora fracos no mister de construir versos; outros, provavelmente, de olho nas benesses do Estado - uma prática, aliás, que haveria de se estender de pai para filhos, compreendendo velho tronco genealógico de quatro ou cinco famílias a abarcarem simplesmente tudo na Terra do Comendador Luís Sucupira, desde os postos estraté…